terça-feira, 1 de julho de 2008

O Amor

Tenho meu corpo arrastado por dias. As pedras massageiam minha coluna, minha nuca, meus braços. Consigo sentir a força extrema da luz. A quentura me invade por inteiro e todos os meus órgãos parecem parar. A magnitude da minha indefesa aciona um alarme dentro de mim. Não ouso abrir os olhos.

Meu rastro forma uma vala pouco profunda na areia molhada. Já nem sei porque estou me movendo. Algo segura meus pés atrás das próprias costas e puxa. Meu corpo está suspenso. Ouço barulho de passos pesados.

Sinto o cheiro doce pelo ar. Os caules das orquídeas se enroscam em meus braços enquanto eu me deixava prender. As flores murmuravam e eu não conseguia entender. Todo aquele perfume me dava vertigem. Aquelas flores nascendo dentro de mim, brotando pelas minhas entranhas. O abraço me lembrou sufocamento. Eu estava sendo arrastada para o centro da Terra.

Meu cabelo já comprido fazia uma linha graciosa no rio. Toda aquela água gelada confortava meus ossos. Tinha a plena sensação de que existiam, pelo menos, dez metros abaixo de mim. Pressionei minha cabeça pra trás, mas nada me fazia afundar.

Finalmente fez noite. Abri os olhos vagarosamente, mas não pude entender. Minhas pernas suspensas, meu tronco no chão. Mas nada segurava meus pés. Eu observava meu corpo sendo arrastado, o horizonte magicamente se modificando. Imaginei uma explicação praquilo tudo.

Dormi e sonhei com asas de um querubim. Sonhei com flechas fincadas em meu corpo. Sonhei com o amor me abduzindo, engolindo, transformando. Então eu pude ver. Abri os olhos na certeza de que entendia o que segurava tão forte em meus tornozelos.

O Amor tinha um aspecto muito estranho e braços incansáveis.

4 comentários:

Luis Pereira disse...

quase um delerium.

ou seria deleite?

Denii disse...

O Amor tinha um aspecto muito estranho e braços incansáveis.

Uma bela definição!
Adorei!!
=)

Rafa disse...

Isso tudo é o amor? Para uns o amor é químico. Para ouros não passa de uma metáfora. Para mim é uma grande sensação. É o que você sente nessa sua descrição. E o que eu sinto parece com tomar um banho quente depois de ter ficado horas passando frio. Ou deitando depois de ficar horas em pé. Sinto um enorme alívio misturado com algo a mais que não consigo explicar. Mas que você descreveu muito bem. O que eu sinto é delicioso e também me arrasta para dentro. Para o centro. E meu querubim é você.

TE AMO MUITO!

Meu amor.

babi disse...

me lembrou delirium tambem, minha favorita dos perpetuos XD