terça-feira, 18 de setembro de 2007

(Conto sobre) Tragédias entre Café e Cigarros

Ela trouxe o café. Forte como eu gostava. Pensei em tirar meus óculos escuros, mas gostava muito deles. Combinava com aquele contexto. Ela acendeu meu cigarro e seu sorriso de satisfação transbordava pelo canto da boca. Aquela bandejinha, aquele sorriso disfarçado e eu com sua ruína num vidrinho em minha bolsa. O apartamento não era tão grande. O chão de taco, a renda da avó, tudo aquilo me encantava. Eu estava cansada do clean do meu ap. Era tudo tão certo, sem herança, sem móveis antigos. Tudo novo e morto. Mas o dela não. O dela tinha história. Era um daqueles prédios mais coletivos que os prédios comuns. Quando subi a escada e vi a porta, 12A, sabia exatamente como era dentro. No corredor, fotos antigas, um abajur lá embaixo e um pouco de sujeira nas paredes bege. Era maravilhoso.

Ela sentou-se no sofá e eu já estava à vontade na poltrona, fumando e observando a rua, enquanto ela falava de coisas que, claro, eu não estava ouvindo. Cortei seu raciocínio pedindo mais café, e ela foi mais do que depressa. Obviamente era uma estratégia. Derramei todo o liquido na sua xícara e esperei. Ela retornou feliz por eu ter gostado de tudo. Depois que tomou seu café, eu apenas a olhava, agora muito sorridente, elogiando o apartamento e tudo mais. Ela levantou para pegar mais cigarros e ficou tonta. Quando caiu, eu respirei tão satisfeita com minha idéia engenhosa que nem acreditava. Como eu era miserável. Mas então, a sentei de novo no sofá e a fiz acordar.

Adorava esses remedinhos que deixam as pessoas mais maleáveis que uma puta bem paga. Estava nas minhas mãos. Aquilo funcionava igualzinho a hipnose, era fantástico. Ordenei então que fosse preparar mais café, comprar mais cigarros. Meu organismo era insaciável quando falava nicotina e cafeína. Era praticamente irresistível.

Assim que saiu do apartamento, entrei no quarto e procurei alguns cds. Coloquei uns clássicos na bolsa, The Doors, Janis Joplin e claro, Johnny Cash. Achei o Volume IV do Led Zeppelin e botei pra tocar. Comecei a dançar Rock n Roll enquanto me apossava dos livros, das miniaturas, anotações, fotografias antigas e cds. Quando voltei pra sala, lá estava ela com a carteira de LA na mão, só me esperando ordenar mais algo. Agradeci ironicamente toda aquela atenção. Que maravilha de anfitriã tínhamos ali. E eu, claro, não poderia ser melhor hospede. De fato, aquilo me incomodou por alguns segundos. Talvez eu devesse tê-la amarrado. Seria legal fazê-la lembrar disso. Mas ah! Que besteira, pra que tanta avareza?

Depois de pegar tudo que queria (que certamente me pertencia de algum modo), sentei um pouquinho e conversei sobre o tempo, sobre os problemas sociais, enquanto tocava Stairway to Heaven. E ela lá sentada. Me cansei daquilo antes de começar Misty Mountain Hop. Fui na cozinha, enchi uma panela com água e joguei tudo com enorme satisfação em seu rosto. Satisfação típica de quem está fazendo uma boa ação. A garota acordou e se desculpou pelo devaneio, não sabia como, mas não lembrava o que tinha acontecido. Eu gentilmente a deitei no sofá e disse "vá dormir", enquanto ela fechava os olhos. "Pena que não deu tempo de se despedir", pensei. Peguei um pedaço de papel e escrevi um pequeno agradecimento pelo café, cigarros e outras coisitas mais. Bati a porta e ela nunca mais me viu de novo.

5 comentários:

lu disse...

Uma visita sórdida, porém útil :D Vamos na casa do nosso ídolo roubar os vinis, ok?

PRECISO destacar os melhores trechos:

"enquanto ela falava de coisas que, claro, eu não estava ouvindo."

"Fui na cozinha, enchi uma panela com água e joguei tudo com enorme satisfação em seu rosto."

Bibian disse...

sabe do q eu mais gosto? parece comigo... e como parece!

lindo tee, adorei. de novo.

janaína Calaça disse...

Hehehehe... Stairway to heaven... Sempre vejo esta canção associada a situações irônicas. Uma certa vez ouvi uma história sobre um hospital, que abrigava pacientes em fase terminal e em um momento do dia, tocavam essa música nos corredores. Que tal?

Continua ácida, hein, baby?

Beijos

Jana.

Carlos Isaac disse...

genial.

ironía e acidez prevalecem, como de costume xD
mas com um toque de romance.

mto foda mesmo. keep it up ^^

beijos e saudades de ti.

lucianosousa disse...

seu lado obscuro me atrai...
mas, também me faz ter receios por ti...
:p