domingo, 8 de abril de 2007

Transretornos (?)

Abriu os olhos sem cerimônia. O sol frio, acompanhando do vento mórbido, deixava o quarto branco mais confortável. Mas ela já não se importava com a delícia das manhas frias. Já não se importava com o prazer de estar numa cama enorme e aconchegante. Uma cama vazia.
Sentou-se. A luz tão doce e clara atravessava as pequenas frestas da cortina que se balançava vagarosamente. Sensível. Respirou profundamente todo aquele ar, enchendo seus pulmões. Fechou os olhos e deu à sua mente um lugar de descanso. Minutos de paz medicada. Pensou durante alguns segundos. Apesar de estar acordando como todos os outros quarenta e oito dias, algo estava diferente.
Nunca havia se sentido sozinha. Com ou sem pessoas, com ou sem telefonemas. Nunca havia se sentido sozinha.
Hoje ela levantara diferente, era fato. Alguma coisa estranha, pesada. Talvez estivesse dando lugar àqueles sentimentos. Possivelmente algumas lembranças, desejos. Com certeza coisas que jamais poderiam ser tocadas de novo. Não importa. Que tipos de pessoas procuram pensar no que já passou? E no que já passou há quase sete semanas! Só tolos. Sentimentos são para tolos.
Levantou-se e foi em busca de café. “Nada de cigarros hoje”, pensou. Os seus já tinham acabado na noite passada mesmo. Nada de cigarros hoje.
Ligou o rádio, sintonizou um pouco. Pronto. Head Over Heels. Foi para a cozinha, pegou o resto do café de ontem e caminhou para sala. Encostou-se na parede. “Oh, you are wasting my time, you are just wasting time”. Respirou devagar a cada gole, atribuindo cada momento a uma lembrança. “Something happens and I'm head over heels”. Um sorriso. Seu coração se enchera de repente. Talvez fosse a música, talvez a lembrança certa. Talvez fosse só o tempo. Jogou o resto daquele café amargo na pia. Por que tomar algo tão repugnante?

10 comentários:

Lu disse...

Café realmente é um troço repugnante..prefiro até chá :D Os sentimentos não são para tolos, eles são extremamente necessários e a falta deles tornam as pessoas ocas feito um vaso de barro.

marcos amorim disse...

Hummmm escreve muito bem vum menina?só não gostei de uma parte, não deveria ter jogado fora o café!!!=)
beijos e feliz páscoa!:*******

Zeppelin disse...

Também ia tecer algo sobre o café, mas deixa pra lá.

Gostei mais dele assim, principalmente do itálico... bela sacada =)

Tito Augusto disse...

muito bem pensado o texto! e muito bem escrito também!
“Nada de cigarros hoje” e amanhã?
"Que tipos de pessoas procuram pensar no que já passou?" todas aquelas que vivem se torturando!!

Carla - LADY INSANIDADE disse...

Teee

vc é simplesmente SURPREENDENTE!!
tô bege menina!!
como vc escreve bemm!
adorei!!
sucesso viuuu?
bjooo

Xadai disse...

flamingos rosados no quintal de plástico decoram o materio-capitalismo do bem estar.

Tão cotidiana quanto as muriçocas :P

bom textito :***

rafa disse...

Tem é que trasformar esse gosto amarríssimo do café de ontem na frustração mesmo! Tem é que considerar tudo e jogar, num ritual de to-pouco-me-fodendo-pra-nada, no ralo! Amo as angústias de suas personagens! São belas e hipocondríacas. Café também é remédio! Cigarro também é remédio!

Você é o meu remédio contra os textos ruins, Tila!
:***

Janaína Calaça disse...

A solidão só é sentida quando somos expostos às pessoas que nos causam alguma reação química, ou seja lá que porra for. Pessoas mornas não me fazem chegar em casa e achar que o vazio foi multiplicado por dez. Às vezes até prefiro só encontrar gente morna no caminho, pq a solidão depois do contato fica menos gritante, mas aí é ser conformista demais e eu já estou definitivamente cansada de tanto conformismo besta.

Beijos

Jana

Anônimo disse...

invernal e quase doce vertigem.
lindo, viu?
marco
naselva.com/marco

rud disse...

eu não gosto de café, também...