segunda-feira, 23 de abril de 2007

E a morte os chama

Primeiro Dia
Os lírios cheiravam à morte. Mas aquilo pouco importava. Estava tudo indo como ele pedira. Deitado. Cabelos louros ondulados caindo nos ombros, lábios rubros, face pálida. Gentil. Ela permaneceu estática. Fechou os olhos e deixou a música ecoar dentro de si. Fechou os olhos e desejou, pela primeira vez depois de tanto tempo, estar sonhando. Pena. Era pura realidade. Seu amor estava indo embora. E foi sem avisar.
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O céu estava cinzento. Uma tempestade a caminho. As nuvens rolavam pelo céu em sua direção. E ela só estava ali, sentada. Fechou os olhos para que pudesse vê-lo mais uma vez. Seu coração estava inquieto. Ela não suportaria nem mais um dia.
Segundo Dia
Preparou a mesa do jantar. Nunca havia esperado tão ansiosamente pela chuva. E ela veio.
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Cavou insistentemente. Suas lágrimas haviam se misturado com chuva. Tinha um sorriso estranho, paranóico, transformando toda aquela situação em imundice. Era fétido, mas era uma prova de amor. SUA prova de amor.
Então pode vê-lo de novo. Pode tocá-lo e levá-lo para onde era seu lugar. Para casa.
Terceiro dia
Na mesa, velas, rosas e jantar. Ela e seu amado, aprisionados no limiar do amor. No limiar da loucura. Seu sorriso cadavérico sem paz, rosto inexpressivo, corpo sem alma. Completamente morto. Ela falava sobre o tempo, sobre os dias em que esteve sem ele. Por que ele havia demorado tanto a voltar? Por que a deixara sozinha? Antes que balbuciasse desculpas - se pudesse – ela o perdoara. Estava feliz de tê-lo em casa. Segurou sua mão, tão gelada, e abraçou seu corpo mórbido. A textura da pele, tão incomum. E aquele cheiro. Aquele cheiro de carne podre. Mas ela não se importava. Estava quase na hora de dormir.
-
Na cama, os dois deitados. A louca e seu marido moribundo. O corpo dela, por dentro, já fraco, podre, infeccionado. Doce veneno do seu próprio anjo, do seu próprio amor. Ele, por fora, pedaços de carne cinza. Pedaços comidos por vermes. Completavam-se numa única desgraça. Partes de uma só coisa. Um único amor.
Ela o abraçou, aproximando seu corpo ao dele. Deu-lhe um beijo de boa noite e entregou-se tranqüila ao sono eterno.

12 comentários:

Mariana disse...

Que força a desse marido moribundo viu?

Eu Não tenho Ideia disse...

Gostei muito.
Qualquer assunto relacionando a morte é algo estranho.Eu nao tenho medo da morte, mais n me imagino morrer oO Sei lá.
E esse marido ae hein? hhehehe

Ta show.


Continue.

Túlio Carapiá disse...

Muito bom o texto, muito bom mesmo. Conheço alguem que tb vai gostar... vou mostrar a ele o site.

ABS

Zeppelin disse...

visceral.

tito augusto disse...

essas coisas saem da sua cabeça?

Matheus disse...

Bom texto! Gosto do cenário. Um abraço!

Val Freitas disse...

uma vez, me perguntaram assim: já tentou escrever algum roteiro, mínimo que seja?
na época, eu apenas escrevia o que me vinha, sem alarde, sem qualquer interesse maior. era necessidade pessoal, da hora, daqueles tempos.
o tempo foi passando e me levando jutno. e trazendo monte de pessoas incríveis com quem conversei, de quem li e ouvi centenas de poemas, crônicas, contos, prosas.
e a gente sabe que nunca mesmo, vai conseguir conter tudo ou apreender só o necessário.
daí eu que eu digo assim pra vc, Teelinda: continue. cada vez mais. recomponha-se sempre que um texto nascer. e olhe pra ele d elonge, como se o encontro entre vocês fosse coisa do Don Acaso, porque ele existe e é um moço muito sério.
fico bem feliz por me chamar pra te ler, visse!
me senti caminhando por entre cenários, um diálogo pessoal d apersonagem principal com ninguém mais exceto ela mesma. o amor caído, a vida ruindo-se ao lado, marca o retorno, nunca a desistência. dormir parece muito sábio algumas vezes. prefiro crer que ela dormiu e logo foi acordada para dar lugar ao que passou. :-) coisa da minha cabeça, vc sabe! beijos.

rafa disse...

Lembra um texto que eu fiz sobre a morte que estava para chegar. Só que eu, com minha mente só, escrevi sobre uma pessoa que morria só. E você, com sua mente só, escreveu sobre um casal que morre unido, mas como se fossem um só.
Muito lindo isso. Escrever sobre morte é lindo por não ser todo mundo a conseguir. Geralmente ficam textos vazios e sem conteúdo. A graça está em fazer o leitor derramar uma lágrima, nem que não seja uma real, mas uma por dentro. Uma pela alma. A minha foi em honra dessas pessoas que não existem, que estão morrendo. Minha lágrima foi, como elas, imaginária.
Acho que você diria pra mim: "Você ta precisando de uma namorada, Rafa..."
Naaaa... haha!

Angelus disse...

q parada bizarra
ehheheheheh
^^

interessante seu tipo de escrita
gostei mt do texto
bjs, querida

Lu disse...

Mórbido e insano. Triste ao extremo. O personagem, pela descrição, era muito lindo..ele não deveria ter morrido Tiloca..que coisa ;~

RuD disse...

Eu acho que vou acabar me frustrando tentando fazer um comentário à altura do seus textos...

Esse texto realmente me conquistou e não será a primeira vez!
Beijos, linda!
Je t'aime...

leo disse...

Bem interessante e diferente, ou em outras palavras, minhas mesmo, muito bom. ^^
Um viva à suas palavras!
=)