quinta-feira, 7 de agosto de 2008

A Roda da Fortuna

Ela tinha parado de seguir por aquele caminho há muito tempo. Tempo demais para se lembrar. A estrada de pedra, tortuosa, comprida e com curvas quase indescritíveis, só fazia com que sua cabeça construísse um grande círculo de 100 milhas. Embora acreditasse que todo grande esforço leva a algum lugar, aquela caminhada só conseguia levá-la ao ponto de partida. Mas ela sabia que aquele tipo de partida já não fazia parte dos seus propósitos.

Desviou daquele caminho pré-destinado, com todas as suas pegadas insistentes e profundas, tomando a direção leste e seguindo por dentro da floresta. Nunca passara por noites tão escuras, concluindo que dar lugar a qualquer luz era perda de tempo. Esperança era perda de tempo. Sabia também que tempo era algo inexplicável. Algo que já não existia mais da mesma forma.

Procurou, naquela mata densa, qualquer sinal de um rio ou lago. A chuva há muito havia abandonado aquela região, não fazendo o menor sentido todo aquele verde abafante. "A natureza sempre se adapta", pensava. Talvez tudo aquilo tivesse uma espécie de vida própria, uma reciclagem ímpar, que não dependesse da vontade de nenhum deus ou fator climático. O certo era que sua pele e mente precisavam voltar ao local de origem. Precisava encontrar água.

O silêncio daquela noite tornava o barulho de suas idéias conclusivamente ensurdecedor. Os pensamentos rodeavam incansáveis buscando questões. Lembrou-se que teriam dito algo sobre o privilégio da dúvida. Tentava imaginar como todas aquelas interrogações, aquelas pequenas marcas de questão poderiam ser de alguma serventia. Como poderiam, por fim, trazer algum privilégio.

A sonolência, que era algo raro naquele sistema nervoso, começou a caminhar lentamente ao redor de seus olhos. Pela primeira vez em anos, quis manter-se acordada. Não sabia exatamente por quê. Talvez já estivesse acostumada a manter os olhos abertos por dias, e fechá-los transformava o descanso em algo claustrofóbico. Dormir quase significava não mais acordar.

"Agora era tarde demais", pensava enquanto sentia suas pálpebras excessivamente pesadas para suportar aquela pressão. "Sempre é tarde demais."

No seu sonho, a aurora resplandecia em amarelo e azul ao longo do horizonte. A floresta havia ficado para trás. Conseguia ouvir o farfalhar das folhas, a inquietude das árvores. Ainda assim, estava distante de tudo aquilo. À sua frente, uma construção gregoriana abrigava uma fonte muito antiga. Talvez do tempo que ainda era uma criança. E isso realmente fazia muito tempo. Ao gradativamente aumentar a velocidade dos seus passos, sentiu que não estava sozinha. Que algo antigo havia retornado. Algo que acreditava ter dormido.

Adentrou o que parecia um pequeno salão dentro da ruína, avistando a fonte logo mais ao atravessar a porta para outra sala. Seu coração estava inquieto, embora o semblante de seu rosto permanecesse inexpressivo. Permanecesse vazio. Apoiou-se na fonte que esguichava água com leveza e pode perceber que havia algo no fundo. Mergulhou a mão com cautela e tocou uma moeda de prata.

Analisou ambos os lados e percebeu que eram perfeitamente desiguais. O primeiro lado que a surpreendeu, mostrava duas colunas de alturas semelhantes em cada extremidade. No centro, três pontos formando um triângulo. Seus dedos deslizavam por essa face, sentindo o desenho em alto relevo. Do outro lado, algo como uma roda envolvida por fios de tear, rodeada por três diferentes senhoras. Três diferentes idades. Três diferentes fases. Aquela face era perturbadora. Imaginava qual dos dois lados era considerado, de alguma forma, tirar a sorte. Na verdade talvez nem se tratasse disso.

Perdida nas questões incessantes sobre aquela moeda estranha e gelada, sentou-se em um banco de mármore próximo a fonte. O sentimento de estar sendo observada foi finalmente desvendado ao olhar para o outro extremo do banco e perceber que havia um garotinho sentado, balançando os pés. Ele a olhou com olhos penetrantes. Um cinza tempestuoso nunca visto antes. Sem sequer tirar os olhos dela, ele levantou-se e caminhou lentamente em sua direção. Abaixou-se na sua frente, fazendo-a sentir temor. Ao mesmo tempo em que sua mente era um turbilhão de questões incoerentes, se perguntava por que sentir horror a uma criatura tão pequena.

Então ele tocou-lhe as mãos, ainda com olhos duros e imóveis, dando-lhe o que parecia um papelzinho amassado. A pequena criança afastou-se dela, apontando para a aurora já dispersa no horizonte. Ela seguiu o dedo dele com os olhos, observando atentamente que algo se movia bem longe dali, deixando uma grande fumaça branca para trás.

Abriu a boca, enchendo os pulmões de ar, buscando formular qualquer pergunta que afrouxasse os nós em sua mente. Foi aí que percebeu, voltando os olhos para o lado, que estava sozinha novamente. Então, como em um ato instintivo, jogou a moeda para o ar e observou a sua sorte. Deixou o corpo cair para trás sem preocupações, fechando os olhos para os sonhos e os abrindo para a realidade.

Estava de novo na floresta. Em sua mão direita, uma moeda de prata. Na outra palma, um bilhete vermelho. Desdobrou cuidadosamente. Parecia alguma passagem antiga de trem. As nuvens no céu desenrolavam com violência, escondendo o sol que acabara de nascer. Suspirou e levantou-se, tomando seu caminho enquanto a chuva encharcava sua alma.

3 comentários:

lu disse...

Eu me assustei com o tamanho desse texto..e pensei: É UM LIVRO! E realmente, você deveria escrever um livro..e esse texto parece um roteiro interessante de filme :) Falando em filme, essa frase "A natureza sempre se adapta" me fez lembrar Adaptação..MUITO bom, tirando a cara apática do Nicolas Cage (y)

Denii disse...

Vc tinha que entrar num concurso de contos.
=)

SONHO ESTRANHO disse...

"Sempre é tarde demais."