quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Aquele maldito botão.

Quando me pego pensando, e afirmo que tem sido em momentos raros, tenho desfrutado do prazer de pensar em nada. Pensei que, como em grande parte dos momentos da minha vida em que minha cabeça estava cheia de problemas meus e dos outros, eu jamais conseguiria esvaziar minha mente sem algum esforço preliminar. Mas aí está. Sem nem sequer mover um dedo, tenho minha mente vazia como um papel novinho cheio de nada escrito. O único problema é que existe alguém dentro da minha cabeça pronto para decidir o momento de tudo se transformar numa folha em branco.

Eu sempre imaginei o quão relaxante seria desligar-se durante alguns segundos. Aqueles segundos que mais parecem horas, até alguém te trazer para realidade berrando seu nome pela terceira vez. Sempre imaginei o quão seria relaxante afastar os pensamentos indesejáveis e correr por um espaço ilimitável de inexistência. Aí aconteceu, e na realidade está começando a me incomodar o fato de não ter nada na cabeça.

Eu acredito, observando a evolução descrita em mim mesma, que essa perspectiva só me levará a não querer absolutamente nada de nada. Eu decidi sentar e esperar o tino da mudança acontecer, as coisas se clarearem e tudo ficar mais nítido. No final das contas, as coisas ficaram tão claras que eu não faço idéia do que está escrito nesse papel. Eu nem sei, pra ser honesta, se tem mesmo algo escrito aqui.

Quando passo a tentar imaginar o que pode ser feito para que o grito saia boca a fora, para que os corações se partam e as pessoas sumam, qualquer possibilidade de tinta começa a derreter e borrar todo o papel. Bem, não se pode ter tudo nas mãos tão facilmente.

Decido então esforçar-me mais, na esperança de que finalmente os rabiscos virem palavras legíveis. Forço minha mente sujando meu travesseiro de vermelho. Quando a maquinaria, trabalhando com força total, espirra vapor pelos meus ouvidos e óleo pelos meus olhos, alguém pressiona aquele maldito botão e tudo é esquecido em um infinito espaço de campos brancos, que logo irá se transformar em um eco insistente, berrando sem dó nem piedade meu nome pela terceira vez.

6 comentários:

Xadai disse...

I would love to have a button.
I would like to crush it to see if the entire machine collapses upon itself.

But i think that's not goonna happen.

Zeppelin disse...

Escreva da forma que achar conveniente, mas lembre-se que certas tinta não pode ser apagadas, sejam manchas ou poemas, não importa.

Reinaldo Glioche disse...

Oi, cá estou eu, digerindo mais esse pensamento para lá de acachapante. É sobre controle? Sobre ansiedade? Sobre pressão? Um pouco de tudo. Sua capacidade de usar metáforas e atingir seu leitor em níveis diferentes é impressionante.
Seu texto é muito pessoal mas se comunica muito bem com o público. Parabéns!
E muitos beijos

Louise disse...

Quando li o título, lembrei de Coraline e os olhos de botão. Quando li o primeiro parágrafo, achei que fosse um texto sobre a arte de meditar...aí veio o desfecho e acabei gostando de todos os fragmentos (: Rasuras são perigosas, escreva a lápis, é mais seguro. Depois passe a limpo quando as palavras tomarem forma.

Rai disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
raai. disse...

me lembrou Caio F, de verdade. Ainda mais na parte que você cita a tentativa dos rabiscos virarem palavres legiveis. Escrever é vomitar o que se sente, deixando um rastro, moldando para tentar finalmente fazer as palavras se tornarem flores - ou pesadelos-. Você escreve muito bem, gostei daqui ;]
;*